Normalmente, a gravidez gera preocupações mais biológicas, tais como: a saúde do bebê e da mãe, se a mãe está se alimentando e dormindo bem, se anda muito nervosa, fatos que são fundamentais para o bem-estar do novo ser, contudo, a apreensão com a gestação não deveria se restringir somente às questões de ordem orgânica. Ao longo do tempo, a gestação se transformou em um fato coberto de fantasias de felicidade e beleza. Entretanto, a realidade, muitas vezes, é distante dessa idealização toda, pois, mesmo que o bebê tenha sido planejado e os pais estejam felizes em recebê-lo, a mulher experimenta uma enxurrada de hormônios e modificações em sua vida, em seu corpo e no seu estado psicológico. Nesse período, muitas mulheres se sentem forçadas a calar seu sofrimento, o que acaba o intensificando.

Sempre digo aos meus pacientes que para ser um adulto saudável é preciso poder se olhar no espelho, mas, para isso ele deve sentir-se completo. Continuo falando que, é como uma casa, ele começa a ser construído bem antes do nosso nascimento, como se nossos antepassados nos fornecessem a madeira para que seja possível colocar os primeiros cacos de vidro. Quando a mãe engravida, esse espelho passa, cada vez mais, a ganhar pedaços e assim ocorre, incessantemente, pelo resto de nossas vidas, por isso, o espelho pode oferecer uma imagem pessoal integrada, mas, nunca acabada. No entanto, temos o costume de negar e querer esquecer algumas partes, geralmente aquelas que são dolorosas, de nossa história e de nossa personalidade, dessa forma, é impossível enxergar-se e ser uma pessoa por completo.

Anteriormente, seu corpo era apenas seu.

Emancipado de um companheiro e de um ser totalmente dependente que carrega no ventre, a mulher podia ir para qualquer lugar e fazer o que quisesse. Estava acostuma com o formato do seu corpo e seu peso, apesar de não gostar de algumas dobras, sabia o que vestir e como se sentiria confortável. Também podia ter um trabalho e se dedicar inteiramente a ele. Assim, se torna necessário que a futura mãe elabore um luto pela liberdade perdida, pelo corpo que se encontra em radical transformação e que, talvez, não volte a ser o mesmo de antes, ou seja, há a vivência de um luto que a mulher sofre para poder aceitar a maternidade e encarnar outra função que exercerá concomitantemente com o seu atual papel de mulher: o ser mãe.

Além disso, sua vida prévia à gravidez não era livre de problemas e, muito menos, eles vão embora com a benção da chegada do bebê, pelo contrário, eles podem persistir e até piorar. O que ocorre é um processo natural em que a mulher começa a reviver os acontecimentos passados, desde como foi a gravidez de sua mãe até outros relacionamentos amorosos. Através desse estado de rememoração, ela pensa a respeito do tipo de mãe que ela quer ou não tornar-se, reavalia os medos e brigas que teve com os pais e reflete como será educar esse bebê, lembra-se do seu comportamento quando era criança e imagina como será seu filho ou filha numa concepção idealizada.

O processo descrito faz parte da gravidez: regredir aos estados mais primitivos da vida para ser capaz de compreender e se relacionar com o recém-nascido. É notável que a mãe começa a ficar letárgica e sonolenta, o que a possibilita estar pronta para a hora do parto e, finalmente, maternar aquele ser que precisa ter o mundo e os sentimentos nomeados e explicados com calma e carinho.

Essa fase é repleta de muito medo.

Devido ao sentimento de não saber ser mãe, de não amar seu filho ou dele não amá-la, de não saber educar, de fazer mal a ele, de não ter a calma necessária, do parto, de não conseguir amamentar, de seu corpo não se restituir aos contornos e peso anteriores, de como será o retorno ao trabalho, enfim, inseguranças que todas as mulheres compartilham, mas, se calam unidas. Em meio a tudo isso, existe um parceiro que agora é pai, um relacionamento a dois que se reconfigura e teme mudar a dinâmica do casal de tamanha forma, que este não regresse a ser como antes do filho (a) também.

Por isso, acredito que a psicoterapia no período da gravidez consiste em uma experiência muito produtiva. As maiores feridas estão abertas e gritando, os medos saindo pelos poros, a verdade da mulher e da nova mãe se contrapõem face a face, duas mulheres que são boas e más simultaneamente, seus defeitos e qualidades, mas, que estão juntas em uma só unidade de corpo e mente para fazer o seu melhor a cada dia que espera e exerce a maternagem para um ser em formação. Quando nasce um bebê, uma mãe também há de nascer.

 

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