É muito comum a cresça de que casais felizes não brigam, o que faz com que durante o relacionamento tentem evitar brigas e conversas difíceis a todo tempo. Muitos dos meus pacientes relatam sobre o fim dos seus relacionamentos ou problemas com a relação atual. Eles me dizem que, sempre, repetiram e tentaram conversar sobre o que não estavam gostando, todavia, isso nunca funcionou realmente. Você já sentiu que não era ouvido pelo outro? Ou que era melhor ter ficado quieto?
Tenho a sensação de que é muito comum o fato das pessoas se calarem por diversos motivos e, quando decidem que é a hora de se “abrirem”, já estão cansadas porque, vivenciaram o mesmo problemas milhares de vezes. O que ocorre é a certeza de que o outro vai entender a mensagem transmitida, mas, se a atitude que recebe é contrária à compreensão, as pessoas gritam, se estressam e a conversa simplesmente acaba em discussão, sem nada ter sido modificado e resolvido.
Existem certas dinâmicas de relacionamento que criam um tipo de subtexto.
O qual nunca é discutido, seja porque isso foi imaginado desde o começo do mesmo como uma realidade inevitável ou porque isso foi depositado no outro como uma característica imutável. Sendo assim, justificamos a falha quando nem pensamos, pois ele (a) era assim desde o início do vínculo amoroso.
Geralmente, percebe-se que os casais criam uma difícil realidade a ser compartilhada, por exemplo: uma condição de inferioridade, seja por questão de riqueza, beleza ou profissão bem sucedida. A parte não escutada se vê sem condições de ser expressa, pois, se isso acontecer, a relação pode ficar danificada e o parceiro muito magoado. Por conseqüência, este último se coloca em posição de não querer ouvir.
Francamente, ser ouvido não é uma tarefa tão fácil quanto parece. Primeiro, é preciso estar calmo.Tudo bem não querer tocar num assunto delicado no momento em que acontece e optar por se recolher para a raiva passar, no entanto, é importante que, depois disso, o sentimento seja revelado. Pois, se optamos em dizer aquilo com o tom de voz alterado ou com ódio, a outra pessoa, provavelmente, nos responderá de forma hostil para se defender, sem, ao menos, ter realmente pensado sobre o que foi comunicado. A discussão que emerge nesse período de exaustão e irritação passa a ter o propósito de atacar e ferir a vulnerabilidade do outro até que se ganhe a briga.
É freqüente que esse tipo de situação intercorra e ocasione um desentendimento, mas, enquanto ambas as pessoas se acalmam, é preciso perceber o sentimento presente, ou seja, é necessário desenvolver a percepção da raiva, tristeza, angústia, frustração, etc.
Vou citar um exemplo para melhor entendimento do leitor.
Quando dizemos para alguém: “Ontem, você me deixou muito chateada depois que me chamou de burra, sei que você estudou mais do que eu, mas, tenho me esforçado bastante, por isso, não gostaria que falasse dessa forma comigo novamente”. A pessoa entenderá completamente diferente se você falar: “Você só me ofende, eu posso ser burra, mas, você é um…” ou “não gosto que me chame de burra! Quantas vezes vou precisar falar isso?”. Todas as frases expressam o descontentamento de alguém que foi julgado de burro, porém, cada uma delas dá um colorido distinto da outra para a situação em questão, transformando o que seria um diálogo em uma total rivalidade. Portanto, dizer como nos sentimos e sermos compreendidos fica mais fácil quando não utilizamos da agressividade para esse meio, assim, falamos livremente o que nos incomodou e, concomitantemente, fazemos influir empatia no outro e que ele pare para nos escutar.
Ter a capacidade de ser empático com o outro é uma grande qualidade. Somente dessa maneira, podemos ser sensíveis para notar quais são os sentimentos e pensamentos de uma pessoa e se colocar no lugar dela, por mais que não concordemos com o que ela está dizendo ou fazendo.
Para ouvir alguém de fato, deve haver uma disposição em ajudar, isso quer dizer, poder apreender a dor presente na fala e acolhê-la para não intensificá-la ou, pelo menos, estar ali para tolerar a dor juntos e ser continente. Dessa forma, no momento em que o outro está dizendo apenas aquilo importa, é relevante você parar o que está fazendo, seja cuidar dos filhos, assistir a televisão ou o trabalho, em compaixão com a dor dele.
Dentro do ambiente que foi construído com respeito.
Você tem segurança de que tudo pode ser dito. O oculto, o que deixa de ser resolvido ou falado se mostrará presente no clima estranho, naquela “patada” aparentemente sem motivo ou na indireta. Muitas vezes, deixamos de dizer coisas para evitar uma briga, constrangimento ou mágoa. Porém, quando o assunto é exposto de uma forma tranquila, ele pode ser pensado e resolvido em conjunto. Se ele continua no subtexto, será cada vez mais ignorado ou interpretado como o outro desejar e, indubitavelmente, continuará a latejar até o ápice em que se torna insuportável.
Quero deixar claro que não estou me restringindo apenas aos casais. Quantas vezes os pais gostariam de ter dito algo para os seus filhos? Quantas histórias na infância foram soterradas? E no espaço corporativo, em que o chefe pede a opinião e o funcionário se cala? Saiba que relações permeadas por segredos e coisas veladas nunca serão saudáveis.
Estar disposto a ouvir verdades e agir para mudar os erros são qualidades que precisam ser treinadas e aprimoradas. Pois, sabemos o quanto é difícil admitir um erro ou o dano que causamos à outra pessoa. Ainda mais quando estamos vivendo uma rotina em que o tempo é contado em segundos e não temos tempo para adentrarmos em nossas emoções e concepções.
Em suma, um relacionamento saudável permite a liberdade de pensamento e de expressão, seja contrária ou não, com acolhimento. Essa atmosfera de confiabilidade cria espaço para respirar e respeitar o outro até em seus pontos de conflito. Logo, é evidente a construção de uma relação melhor no dia a dia.
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